quinta-feira, 29 de março de 2012

Chico Anisio

Adeus ao mestre do humor

Aos 80 anos de idade, morre Chico Anysio, um dos maiores nomes do humorismo no Brasil. O eterno Professor Raimundo criou mais de duzentos personagens e vai deixar saudades

Alice Melo
23/3/2012
  • Morreu nesta sexta o humorista Chico Anysio, aos 80 anos de idade, de uma parada respiratória, no Rio de Janeiro. Anysio foi um dos maiores nomes da comédia de entretenimento no Brasil: começou no rádio ainda na década de 1950 e percorreu a segunda metade do século inovando na televisão. Serviu de inspiração para muitos humoristas e atores da atualidade.
    Em entrevista à Globonews na tarde do dia 23, por exemplo, Renato Aragão – um dos criadores dos Trapalhões, programa que muito bebeu no modelo de humor protagonizado por Chico Anysio no rádio e na TV - fala sobre a relação dos humoristas com o grande mestre: “Ele me ajudou muito quando vim do Nordeste para cá, mas não só isso, ele era uma espécie de pai para todo o humorista da nossa geração”.
    Pai dos humoristas
    O hilário Mussum (1941-1994), que integrava o elenco dos Trapalhões, contou em uma entrevista para o extinto jornal “Casseta Popular” (dos mesmos criadores de Casseta e Planeta Urgente!) que foi Chico Anysio o responsável por sua entrada no mundo do humor. Indicado por Grande Otelo, Mussum foi chamado para trabalhar na Escolinha do Professor Raimundo, interpretando um sujeito que ia cada dia com uma camisa de futebol diferente. Na conversa, Mussum lembra que foi o mestre quem, inclusive, inventou sua marca registrada: "tranquilis!"
    “Eu era ritmista, porque eu nunca quis me meter a ator. Na verdade, eu tinha medo disso aí”, lembra ele. “Quando fui gravar na primeira vez, um português feio disse assim: ‘Agora é a sua vez, Mussum’. Tá legal. Me preparava rezando. Aí ele batia, ‘Vai lá, negão’. Pô, acabava tudo! Dava aquela porrada e eu esquecia tudo! Olhava pro Chico e o Chico, Professor Raimundo, olhando pra mim: ‘É’. Eu digo, ‘Sim senhor’. Ele: 'Como de fatis'. Porque o Chico passou para mim – o que eu devo muito a ele – o seguinte: ‘Você com sua maneira de falar, tem três coisas que são fundamentais pra você. É como de fatis, tranquilis e não tem problemis. Isso é seu ganha pão’. Me batizei com isso. São coisas que realmente falo”.
    Mais de 200 personagens
    Chico Anysio, em seus mais de cinquenta anos de carreira, criou cerca de duzentos personagens que levavam, por diferentes motivos, o espectador às gargalhadas: as piadas, muitas vezes baseadas em bordões, demarcavam bem os tipos sociais encarnados pelo comediante diante das câmeras, do microfone ou da plateia num palco de teatro. Ficaram célebres sob sua interpretação o vampiro Valdeniro Bento Carneiro, o craque Coalhada, o ex-museólogo Popó, ou o prefeito corrupto Walfrido Canavieira. Além de engraçado, ele era bom ator. A comédia soava natural quando interpretava tanto personagens fictícios, quanto ele próprio – como viés cômico de sua vida de retirante nordestino.
    “Eu nasci lá em Maranguape e o médico sabia que aquele era o dia de meu nascimento”, contava o jovem Chico de pé, diante do público, numa premiação da Rádio Roquete Pinto, em 1969, quando recebia a homenagem de Melhor Comediante. “Sabendo disso minha mãe foi levada correndo para a maternidade e foi colocada na mesa e eu só não nasci naquela hora porque aquela não era minha mãe, era a minha tia...”. Pausa para risadas. E a história continua: “Tia que tinha sido levada por engano e por ser solteirona até naquele momento se sentiu realizada...”.
    Não havia barreiras para o humor de Chico Anysio. Criativo e engraçado, ele fazia rir em qualquer situação. Em conversa com a Revista de História, o comediante Bruno Motta lembra de um causo que o mestre contou para ele certa vez: “Estávamos conversando e ele me falou de uma história que aconteceu com o Oscar Wilde... Um dia, uma senhora perguntou ‘Sr. Wilde, escrever é difícil?’, e ele respondeu ‘Minha senhora, escrever ou é fácil ou é impossível’! Quer dizer, pra quem sabe fazer isso - escrever ou fazer comédia - não é trabalho. A gente faz o que sabe fazer”. E comédia Chico Anysio sabia fazer. Muito.

Áfricas Brasileiras

Áfricas brasileiras

Primeiro Biblioteca Fazendo História do ano discutiu o estudo das sociedades africanas no Brasil e a forma como elas são vistas e interpretadas por aqui

Alice Melo
21/3/2012

  • Embaixador Alberto da Costa e Silva Embaixador Alberto da Costa e Silva
    “Peço que durante minha apresentação os senhores não coxixem entre si nem cochilem!”, disse o embaixador Alberto da Costa e Silva às mais de duzentas pessoas que compareceram ao Biblioteca Fazendo História, evento que aconteceu na terça passada, na Biblioteca Nacional. Após um momento de risadas, o historiador, que sentou ao lado da pesquisadora Marina de Mello e Souza, acrescentou: “Percebam que os dois últimos verbos que acabei de usar são de origem africana”. A observação foi uma síntese do debate, que buscou atentar a plateia para a riqueza das Áfricas que compõem o Brasil; e como a herança desta heterogeneidade de povos trazidos durante séculos em viagens transatlânticas para trabalhar nessas terras estão mais vivas e pungentes na sociedade hoje do que se costuma perceber.
    “Temos uma riqueza extraordinária de povos que trouxeram seu contributo para o Brasil. Porque, ao contrário do que se supôs por muito tempo, o escravo não chegava nu no navio negreiro. O negro que aqui chegava carregava consigo suas estruturas mentais, valores e cultura material. E aqui eles passam a sofrer outro processo de aglutinação. Em vez de termos as etnias - como benguelas, angolanos, moçambiques, nagôs, mandingas, banhuns - passamos a ter o escravo, o negro, o africano”, explicou.
    Documentos em português
    Alberto, que coordenou o dossiê desta edição da Revista de História (disponível nas bancas de todo o Brasil), disse ainda que por muitos anos a África foi ignorada pela historiografia brasileira. E que ele, assim como outros pesquisadores interessados em entender o continente, precisava recorrer a estudos em outras línguas e outros países. “O que é uma pena, já que não se pode escrever História da África sem consultar documentos em português. Portanto, somos depositários do maior tesouro sobre o assunto e cuidamos mal dele por todos esses anos”.
    Ele acrescenta que igrejas, arquivos de propriedades rurais, assentamentos de alfândegas no Brasil estão repletos de documentos que esmiúçam a origem dos escravos que chegaram ao país – durante séculos o negro foi o maior bem comercial lusitano e brasileiro (utilizando o termo anacronicamente), por isso há inúmeros registros sobre ele disponíveis ao pesquisador hoje.
    Precariedade no ensino sobre cultura afro
    Marina de Mello e Souza, professora de História da África na USP, acrescentou ao debate a debilidade do ensino do assunto nas escolas e universidades. “É verdade que a situação está melhorando, mas ainda são poucos os pesquisadores especializados no tema”. Ela comenta que quando foi baixada a lei que obriga o ensino da cultura africana nas escolas, os professores de ensino regular não tinham conhecimento do assunto, já que nos cursos de História das universidades o estudo do continente aparece como disciplina optativa – e isso quando aparece na grade curricular.

    Historiadora Marina de Mello e Souza Historiadora Marina de Mello e Souza
    “E eu concordo com o Alberto quando ele diz que nas escolas os alunos precisam aprender história afro-brasileira, em conjunto com a História do Brasil. Porque dissociar o tema da cultura brasileira é reforçar a separação entre uma cultura e outra”.  Os palestrantes afirmam que o lugar para entender a multiplicidade das etnias e as especificidades dos grupos sociais africanos é na universidade de História. Porque nas escolas, precisa-se ensinar que a África ou as Áfricas fazem parte do Brasil, e suas histórias precisam ser ensinadas em conjunto para eliminar o preconceito e a diferenciação entre uma coisa e outra.
    Racismo no Brasil
    Já no fim do evento, o embaixador responde a uma pergunta da plateia sobre o fato do Brasil ser um país racista com uma explicação bem-humorada: “Olha, estava conversando com um amigo escocês um dia, passeando por sebos no Rio de Janeiro e ele me disse uma coisa engraçada que é verdade. Disse que o Brasil é um país racista, mas não aparenta. E isso, apesar de ser uma coisa ruim, já é um avanço, porque situa o racismo como algo condenável dentro da sociedade. Coloca o racismo como algo desprezível. Ninguém diz que é racista, racista é sempre o outro. Racismo no Brasil geralmente não é motivo de orgulho. Ou é coisa de doido, ou de ignorante, ou de gente perversa!”.
    O próximo Biblioteca Fazendo História vai acontecer em abril, no dia 16. A entrada é gratuita e o público recebe diplomas de participação no final do encontro.

Debate da Revista de História

Alberto da Costa e Silva participa de debate da Revista de História da Biblioteca Nacional

Primeiro Biblioteca Fazendo História do ano, que discute as várias Áfricas que formaram o Brasil, acontece no dia 20 de março

6/3/2012
  • Um dos maiores especialistas em África do país, Alberto da Costa e Silva participa, ao lado da historiadora Marina de Mello e Souza, no próximo dia 20 de março, terça-feira, de debate da Revista de História da Biblioteca Nacional (RHBN) sobre o tema “Áfricas no Brasil: heranças e muitas interrogações”. O evento começa às 16h e será realizado no auditório Machado de Assis da Biblioteca Nacional.
    Os dois historiadores revisitam a África para mostrar as várias facetas dos povos daquele continente que participaram ativamente da formação do Brasil. O debate tem como ponto de partida o dossiê “África no Brasil”, publicado na edição de março da RHBN, que desmonta a noção comum de que os africanos formavam um povo homogêneo e revela que sua história em nosso território foi muito além da escravidão.
    O evento integra a programação da série de debates Biblioteca Fazendo História, que acontece todo mês no auditório Machado de Assis da Biblioteca Nacional. A entrada é gratuita, sem necessidade de inscrição prévia. A presença no evento dá direito a certificado de participação, que pode ser utilizado por alunos e professores como horas de atividades complementares. O debate também pode ser acompanhado em tempo real pelo site do Instituto Embratel e pelo twitter da revista.
    Os palestrantes
    Alberto da Costa e Silva é historiador, membro da ABLe autor de “A Manilha e o Libambo: A África e a Escravidão, de 1500 a 1700” e de “A África explicada aos meus filhos”. Organizou o dossiê África no Brasil, que a revista publica na edição de março.
    Marina de Mello e Souza é historiadora, professora da USP e autora de “África e o Brasil africano”. Publicou na edição de março da RHBN artigo sobre batalhas rituais tradicionais trazidas da África pelos escravos, praticadas até hoje.
    O mediador do debate é Bruno Garcia, pesquisador da Revista de História da Biblioteca Nacional.
    Serviço
    Biblioteca Fazendo História. Auditório Machado de Assis, Fundação Biblioteca Nacional (Rua México s/nº, Centro, Rio de Janeiro). Dia 20 de março, às 16h. Informações: (21) 2220-4300, ramal 215. Inscrições no próprio local. Entrada franca, com direito a certificado de participação.