quinta-feira, 29 de março de 2012

Áfricas Brasileiras

Áfricas brasileiras

Primeiro Biblioteca Fazendo História do ano discutiu o estudo das sociedades africanas no Brasil e a forma como elas são vistas e interpretadas por aqui

Alice Melo
21/3/2012

  • Embaixador Alberto da Costa e Silva Embaixador Alberto da Costa e Silva
    “Peço que durante minha apresentação os senhores não coxixem entre si nem cochilem!”, disse o embaixador Alberto da Costa e Silva às mais de duzentas pessoas que compareceram ao Biblioteca Fazendo História, evento que aconteceu na terça passada, na Biblioteca Nacional. Após um momento de risadas, o historiador, que sentou ao lado da pesquisadora Marina de Mello e Souza, acrescentou: “Percebam que os dois últimos verbos que acabei de usar são de origem africana”. A observação foi uma síntese do debate, que buscou atentar a plateia para a riqueza das Áfricas que compõem o Brasil; e como a herança desta heterogeneidade de povos trazidos durante séculos em viagens transatlânticas para trabalhar nessas terras estão mais vivas e pungentes na sociedade hoje do que se costuma perceber.
    “Temos uma riqueza extraordinária de povos que trouxeram seu contributo para o Brasil. Porque, ao contrário do que se supôs por muito tempo, o escravo não chegava nu no navio negreiro. O negro que aqui chegava carregava consigo suas estruturas mentais, valores e cultura material. E aqui eles passam a sofrer outro processo de aglutinação. Em vez de termos as etnias - como benguelas, angolanos, moçambiques, nagôs, mandingas, banhuns - passamos a ter o escravo, o negro, o africano”, explicou.
    Documentos em português
    Alberto, que coordenou o dossiê desta edição da Revista de História (disponível nas bancas de todo o Brasil), disse ainda que por muitos anos a África foi ignorada pela historiografia brasileira. E que ele, assim como outros pesquisadores interessados em entender o continente, precisava recorrer a estudos em outras línguas e outros países. “O que é uma pena, já que não se pode escrever História da África sem consultar documentos em português. Portanto, somos depositários do maior tesouro sobre o assunto e cuidamos mal dele por todos esses anos”.
    Ele acrescenta que igrejas, arquivos de propriedades rurais, assentamentos de alfândegas no Brasil estão repletos de documentos que esmiúçam a origem dos escravos que chegaram ao país – durante séculos o negro foi o maior bem comercial lusitano e brasileiro (utilizando o termo anacronicamente), por isso há inúmeros registros sobre ele disponíveis ao pesquisador hoje.
    Precariedade no ensino sobre cultura afro
    Marina de Mello e Souza, professora de História da África na USP, acrescentou ao debate a debilidade do ensino do assunto nas escolas e universidades. “É verdade que a situação está melhorando, mas ainda são poucos os pesquisadores especializados no tema”. Ela comenta que quando foi baixada a lei que obriga o ensino da cultura africana nas escolas, os professores de ensino regular não tinham conhecimento do assunto, já que nos cursos de História das universidades o estudo do continente aparece como disciplina optativa – e isso quando aparece na grade curricular.

    Historiadora Marina de Mello e Souza Historiadora Marina de Mello e Souza
    “E eu concordo com o Alberto quando ele diz que nas escolas os alunos precisam aprender história afro-brasileira, em conjunto com a História do Brasil. Porque dissociar o tema da cultura brasileira é reforçar a separação entre uma cultura e outra”.  Os palestrantes afirmam que o lugar para entender a multiplicidade das etnias e as especificidades dos grupos sociais africanos é na universidade de História. Porque nas escolas, precisa-se ensinar que a África ou as Áfricas fazem parte do Brasil, e suas histórias precisam ser ensinadas em conjunto para eliminar o preconceito e a diferenciação entre uma coisa e outra.
    Racismo no Brasil
    Já no fim do evento, o embaixador responde a uma pergunta da plateia sobre o fato do Brasil ser um país racista com uma explicação bem-humorada: “Olha, estava conversando com um amigo escocês um dia, passeando por sebos no Rio de Janeiro e ele me disse uma coisa engraçada que é verdade. Disse que o Brasil é um país racista, mas não aparenta. E isso, apesar de ser uma coisa ruim, já é um avanço, porque situa o racismo como algo condenável dentro da sociedade. Coloca o racismo como algo desprezível. Ninguém diz que é racista, racista é sempre o outro. Racismo no Brasil geralmente não é motivo de orgulho. Ou é coisa de doido, ou de ignorante, ou de gente perversa!”.
    O próximo Biblioteca Fazendo História vai acontecer em abril, no dia 16. A entrada é gratuita e o público recebe diplomas de participação no final do encontro.

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