segunda-feira, 30 de abril de 2012

Visite o Museu da Inconfidência sem sair de casa


Morar longe de Ouro Preto não é mais pretexto para deixar de visitar o Museu da Inconfidência. Agora, o espaço fundado nos anos 1930 com a finalidade de preservar a memória da Inconfidência Mineira (1789) está de portas abertas na internet. Para percorrer a área interna do museu é simples: com um clique, o internauta sobe as escadas do prédio, que fica na virtual Praça Tiradentes, e inicia o passeio cultural. Todas as peças da exposição permanente podem ser vistas na tela do computador – assim como suas placas com texto explicativo.

A iniciativa faz parte do projeto Era Virtual, do Ministério da Cultura, que vem financiando visita digital a museus de várias partes do país. Já estão disponíveis no site o Museu da República, no Rio; a Casa de Cora Coralina, em Goiás; e o Memorial Tancredo Neves, de Minas, entre outros.
As visitas podem ser feitas por meio do endereço: www.eravirtual.org

Fonte www.revistadehistoria.com.br

quinta-feira, 19 de abril de 2012

ENTREVISTA -PAUL LOVEJOY

 

Embora eu tenha lido essa entrevista já ha algum tempo achei interessante posta-la pois é muito interessante.

 


    

“Escravidão por todos os lados”

Bruno Garcia e Rodrigo Elias
    1/3/2012                                                         
  • Ele não exime ninguém. Quando o assunto é escravidão, o mundo inteiro entra em pauta. Professor da Universidade de York, em Ontário, no Canadá, e referência certa nas pesquisas sobre a escravidão no próprio continente africano, antes da chegada dos europeus no século XV, Lovejoy vai direto ao ponto: “A história dos descendentes africanos não é somente deles. É a de todo mundo”.
    Naturalizado canadense, Lovejoy nasceu nos Estados Unidos. E foi ainda jovem que ele se envolveu com a História. Com o tempo, chegou à América Latina, mas se apaixonou mesmo foi pela África. “Quando percebi o quanto o continente era fascinante e o quanto as pessoas eram incríveis... isso simplesmente dominou minha vida”, diz ele, feliz por estar hoje celebrando o surgimento de uma geração de historiadores capacitados para tratar a África “de um modo científico”.
    Em recente visita ao Brasil, Lovejoy conversou com a equipe da Revista de História na residência de Alberto da Costa e Silva, especialista na História da África, e falou sobre a escravidão do passado e suas implicações no presente. O Canadá vem à tona vez ou outra, seja como liderança no cenário multicultural atual ou como porto seguro para escravos fugidos dos EUA em meados do século XIX. Lovejoy tratou das diferentes etnias africanas que atravessaram os mares e do quanto os senhores estavam conscientes das características, origens e habilidades de seus escravos. E terminou nossa conversa com um alerta: “Um escravo é antes um indivíduo com uma personalidade, desejos e heranças”. 

REVISTA DE HISTÓRIA Como um canadense acabou virando especialista em História da África?
PAUL LOVEJOY Eu me envolvi com a História quando ainda era jovem e lutava contra o imperialismo norte-americano. A tentativa de entender as forças políticas e sociais em jogo no final dos anos 50 e 60 me levou, inevitavelmente, a uma forte crítica aos Estados Unidos. E isso me trouxe para a História porque eu queria entender como os Estados Unidos se tornaram um país tão racista e imperialista, mas poderoso. Depois de um bom tempo, comecei a ficar muito mais interessado em outras partes do mundo. Primeiro a América Latina e depois a África. Eu me apaixonei pela África. Quando percebi o quanto o continente era fascinante e o quanto as pessoas eram incríveis... isso simplesmente dominou minha vida.
RH Como vê os últimos 20 anos de pesquisa sobre a História do continente africano?
PL Houve uma verdadeira revolução nesse período. E o que vemos hoje é a consolidação de uma geração inteira de pesquisadores que foram profissionalmente treinados para tratar a África de um modo científico. E esse treinamento, do qual eu penso que fiz parte, nos levaria a um sistema de investigação de qualidade que trataria todas as partes do mundo igualmente. Acho que nessas duas décadas vimos os resultados desse investimento. É um verdadeiro fenômeno tudo o que foi produzido nessas décadas, seja em termos quantitativos ou qualitativos. Não é mais possível para uma única pessoa estudar todos os ramos de pesquisa sobre a África. Era o que acontecia nos final dos anos 60, quando comecei a me interessar pelo continente. Não é mais possível fazer isso. É demais. Hoje nós temos 80 universidades e muitos pesquisadores. E olhe que ainda existe muito material a ser investigado. Esta, aliás, foi uma das surpresas que tive quando me interessei pela África.
RH Você achava que o material era escasso?
PL Sim. Eu acreditava que era precisotrabalhar a História da África justamente porque as informações eram muito limitadas. Estava redondamente enganado. A quantidade de fontes existentes na Europa é enorme. E eram documentos que demandavam todos os tipos de técnica. Todo arquivo no Brasil tem alguma relação com a História da África. Todos. E você sabe de uma coisa? Dá-se o mesmo nos Estados Unidos. Cada condado, cidade ou biblioteca local tem material relacionado às pessoas que descendem de africanos. Eles estão no centro do desenvolvimento da América. De todas as partes da América, incluindo o Canadá! O primeiro africano chegou ao Canadá em 1604.
RH Os estudos sobre a escravidão também estimularam uma maior aproximação com a África?
PL Com certeza. A escravidão é um problema para todo mundo. Às vezes ela é percebida como um problema para os povos da África ou para os que são percebidos como descendentes africanos, mas, na verdade, a escravidão está por todos os lados. Um pequeno fazendeiro canadense do século XVIII produzia coisas que eram automaticamente vendidas no Caribe para sustentar o sistema escravista. Então, todo mundo tem sua parte. Essa é a verdade. A história dos descendentes africanos não é somente deles. É a história de todo mundo.
RH Qual foi o impacto da escravidão sobre a economia e a política interna da África?
PL A escravidão cobra um preço terrível em qualquer lugar. Havia muita violência e destruição. Tanto foi construído e destruído... E esse tipo de coisa é muito dura para a população. Uma das consequências da escravidão nas sociedades africanas modernas foi o estabelecimento de regimes de força. A escravidão foi substituída pelo colonialismo, que era uma forma de ditadura. E como foram os colonizadores que criaram as bases dos exércitos africanos, após a independência instalaram-se novas ditaduras.
Isso é algo complexo, mas que começou com a escravidão. Não é que a África tenha se tornado mais corrupta do que qualquer outro lugar. Mas os recursos eram mais escassos; portanto, o impacto foi mais severo.
RH Como pode ser explicada a continuidade da escravidão na África mesmo depois que a demanda externa se extinguiu?
PL Nós podemos usar o modelo econômico de oferta e demanda. Se o fator demanda desaparece na América, o que acontece com a oferta? Ela não desaparece simplesmente. O que acontece com o preço? Ele cai. O preço caindo, qual é a alternativa? Você usa o mais barato possível. O escravo fica muito barato. Esse é um modelo econômico simples. A escravidão, na verdade, se expandiu na África no século XIX. Para você ter uma ideia, no norte da Nigéria ainda havia escravos no final dos anos 1930. O que é surpreendente é como isso pode ter continuado se passou a ser ilegal. No passado, os países fizeram isso legalmente. Cometeram toda sorte de crimes contra a humanidade sem descumprir nenhuma lei. Mas agora há uma lei. Em qualquer lugar que se descubra que isso é feito, você vai para a cadeia. E as pessoas continuam fazendo. Isso é muito impressionante.
RH Como o Canadá se posiciona na história dos descendentes africanos?
PL Eu acho que o Canadá é uma liderança nas questões históricas relacionadas ao multiculturalismo e à manutenção da paz internacional. Pra mim, um exemplo forte disso é o fato de alunos da escola secundária terem muitas opções para o futuro. Eles vão além-mar, trabalham fora do Canadá, em ONGs ou nos mais variados projetos. Isso faz parte da experiência de crescer no Canadá. O que é bem diferente do que acontece nos Estados Unidos. E isto se relaciona ao fato de que há muitos imigrantes no Canadá. Na minha universidade, é possível ouvir oito línguas no campus. Quer dizer, nós temos asiáticos, africanos, caribenhos, latino-americanos... E isso é maravilhoso. É o lado bom do multiculturalismo. O lado ruim, basicamente no Canadá, é que não falamos uns com os outros. Todos os coreanos falam com outros coreanos, todos os chineses falam com os outros chineses, os jamaicanos falam com os jamaicanos.
RH E as comunidades negras que se instalaram no Canadá no século XIX?
PL O Canadá, principalmente quando avançou para o oeste, tornou-se uma área segura para africanos americanos. Isso se intensificou por volta de 1850, quando os Estados Unidos passaram pelo que chamamos de guerra escravista. E, na verdade, desde 1844, quando o Canadá passou a fazer parte do Império Britânico, a escravidão estava abolida. Em Ontário, já no começo dos anos 1790, não era mais permitido ter escravos. Ir para o Canadá se tornou uma das formas de escapar da escravidão. As pessoas que escapavam eram chamadas de “passageiros”.  E eles vinham de olho na Estrela do Norte. Porque, geograficamente, é muito fácil localizar o Canadá na América do Norte. Você só precisa saber onde está a Estrela do Norte e seguir em frente. É uma estrela muito proeminente no céu que permanece estática e conectada com o BigDipper.
RH E foram muitos os fugitivos?
PL Veja só: há uma informação de que 20.000 escravos americanos estavam vivendo em Ontário por volta de 1850. Havia comunidades inteiras de negros como as dos maroons, os palenques… Eu trabalhei com uma comunidade em Ontário que foi fundada no final dos anos 1840. E os descendentes dessa comunidade criaram um museu que tem um espaço histórico nacional. É um exemplo maravilhoso. Afinal, essa história, que produziu tantos impactos negativos ao longo dos séculos, teve certa continuidade. O mesmo não ocorre em outras partes, como nos países islâmicos.
RH Como os países islâmicos lidam com a memória da escravidão?
PL Eles têm muita dificuldade. Nós só precisamos olhar para o time de futebol da Arábia Saudita. Não é todo mundo nesse time que se considera africano ou negro, ainda que eles pareçam mais negros ou africanos do que eu. Porque eles são sauditas, árabes. Há, então, uma manipulação dessas características físicas e da memória da escravidão. Contudo, há um clima de debate que não existia há dez anos. E há muita pesquisa. Eu estive envolvido em vários congressos. Organizei um evento que aconteceu no Marrocos e tratava do assunto. Havia um grande movimento na Líbia neste sentido. O governo líbio sob Kadhafi investiu em temas relacionados à diáspora africana e à escravidão africana. Agora, a escravidão permanece sendo uma importante instituição no Islã.
RH Por quê?
PL A escravidão se deu de maneira diferente por lá. Em todas as sociedades europeias, o status da criança segue o da mãe. Então, se a mãe é escrava, a criança também é. No Islã, não. O status a ser seguido é o do pai. Se o pai é livre, a criança também é. Estamos falando de uma atitude completamente diferente. E eu digo que esta instituição permanece porque ela faz parte de uma certa ideologia. É como se a escravidão pudesse ser explicada em determinados termos, especialmente religiosos. É um componente de uma sociedade hierárquica.
RH E a escravidão para além do mundo atlântico e islâmico?
PL Bem, toda sociedade, em algum ponto, teve escravidão. Ela não é um fenômeno específico e unicamente africano. Já se argumentou que a escravidão foi o primeiro fenômeno de propriedade privada. Até mesmo anterior à propriedade privada de animais. E, na verdade, a habilidade de controlar um outro indivíduo, mesmo que não possamos provar isso, mesmo que não seja verdade, é uma relação de poder.
RH O que acha do termo african-american usado nos Estados Unidos?
PL African-american é um conceito usado pelos racistas norte-americanos. Eles costumam conceber a História como a fenomenologia da mudança dos povos, e eles tentaram justificar o que emerge como um sistema de duas castas. Todo mundo que é percebido de algum modo como descendente de africanos pertence a uma dessas castas. E todo o resto é branco. Uma só gota de sangue africano, e você é negro. Passar a ser branco se torna um conceito. Isto jamais faria sentido em um país com a história do Brasil.
RH Por quê?
PL Eu vou pegar um ano arbitrário: 1800. Nesse ano, havia no Brasil mais descendentes do Congo do que de Portugal. Nesse tempo, as pessoas eram seguramente mais semelhantes às mulheres do Congo do que às europeias. Muito mais. E, mais tarde, quando começamos a olhar através das gerações que nasceram aqui, quem são as mães? Do Congo ou da Europa?
RH Essas identidades permaneceram?
PL Até certo ponto. É o modo como os grupos imigrantes operavam. Você sabe, há uma grande imigração de italianos e alemães para o Brasil. E isso levou quantas gerações até que esses tipos fizessem diferença? Os chineses levaram muito tempo para se integrarem totalmente. Mas acontece. E não é verdade que os brancos não foram para a África. Na África Ocidental há muitos brancos. Depois de gerações, eles parecem negros como todo mundo. Surpresa! Como aconteceu aqui no Brasil, estamos falando de uma situação colonial. Os europeus tinham o poder, controlavam todos os recursos e a própria língua. Veja bem: quantas gerações foram necessárias até que várias das línguas desaparecessem? Quanto de reforço foi preciso? Esse era o jogo que estava sendo jogado: o deslocamento da população por meio da escravidão. E eles eram de diferentes tribos e culturas.
RH Os donos de escravos estavam conscientes dessas diferenças?
PL Eles estavam conscientes e tentavam manipulá-las. Em muitas partes do Caribe, os senhores estavam bem mais conscientes dessas distinções étnicas do que muitas das gerações posteriores. De algum modo, os senhores entendiam as diferenças étnicas, sem saber nada de história africana. Eles sabiam que algumas pessoas vinham de áreas prósperas e tinham habilidade para a administração de estoques, por exemplo. Os senhores discutiam as habilidades e características dos escravos e chegavam até a construir certos estereótipos. Havia escravos que cometiam suicídio. Outros eram mais resistentes. Estes estereótipos, como todo estereótipo, tinha uma pouco de verdade e muito nonsense. O historiador precisa ter cuidado quando depara com essas descrições feitas pelos senhores.
RH Como fazê-lo?
PL Bem, infelizmente, esse é o trabalho dos historiadores (risos). Nós temos que ter treinamento para fazê-lo. Lidamos com a informação disponível e tentamos interpretá-la, preencher as lacunas. Os historiadores são muito espertos ao usar os registros criminais onde há, frequentemente, os testemunhos. É claro que nem todos os testemunhos e registros criminais podem ser confiáveis. Se você matou alguém, não vai admitir. Nos registros criminais você encontra pessoas que foram acusadas por crimes que não cometeram, e as pessoas mentem. Nosso papel é tentar descobrir o que estava acontecendo, identificar o nível de verdade que você pode depositar num documento. Em geral, nesses materiais produzidos por escravos há uma voz forte. Então, é possível capturar, de algum modo, esses níveis de verdade e mentira.
RH Como as histórias individuais podem ajudar os estudos da diáspora africana?
PL Meu trabalho é justamente sobre histórias individuais. Eu fiquei cada vez mais interessado em biografias. A biografia é realmente maravilhosa. Ela nos faz perceber que estamos lidando com um indivíduo. Nós não podemos usar a palavra escravo no sentido nuclear de escravidão. Um escravo é antes um indivíduo com uma personalidade, desejos e heranças. Ele tinha uma personalidade, veio de algum lugar, buscava objetivos. O indivíduo começou vivendo uma vida livre. A escravidão é apenas uma parte de sua vida. Então, o que nós realmente vemos e reconhecemos é que, quando um indivíduo está em uma condição de escravidão, ele não perde a sua individualidade. Dentro de uma situação de vitimização econômica, política e legal, eles vão tentar maximizar e descobrir como sobreviver, como levar as relações, como ter religião... É por isso que eu acho que o indivíduo é importante. Talvez esta preocupação com a dimensão individual seja até mais interessante quando pensamos nos descendentes dos escravos.
RH Por quê?
PL Qualquer descendente de africanos no Brasil tem um passado na escravidão. Esse conhecimento, essa informação e o modo como ela é interpretada são realmente cruciais na base individual. O que acontece quando uma criança aprende que um ou mais dos seus ascendentes eram chamados de escravos? E para as outras crianças na classe, que não têm essa ascendência? Isso se dá hoje em dia nas idades de seis, dez e 12. Qual a diferença que isso faz? Nós precisamos saber isso. É curioso como percebemos que ninguém quer falar sobre o assunto. Ninguém se diz descendente de criminosos, prostitutas ou escravos. Você sabe, toda família limpa sua história. E um resultado possível é um grave e profundo problema social.
RH Quais são os documentos usados para a construção dessas histórias individuais?
PL São muitos. Nós trabalhamos, por exemplo, com algumas autobiografias. Posso citar uma, de um homem que estava aqui mesmo no Rio de Janeiro. O nome dele era Mahommah Baquaqua.  Ele veio do interior do que agora é a República do Benim, na África Ocidental. Era um escravo em 1845 e sua cidade natal era Djubo, no norte de Benim. Ele foi vendido em Pernambuco, comprado por um padeiro que vivia em Olinda. Ele não foi usado na produção de pão, mas na construção, especialmente no corte e no carregamento de pedras. Mahommah tentou matar seu senhor algumas vezes. Também tentou o suicídio duas vezes, fugiu e foi pego. Conclusão? O senhor o vendeu (risos). Mahommah acabou sendo comprado pelo capitão de um navio aqui, em 1847. O capitão do navio mostrou que não era muito esperto. Ele o levou em uma viagem para a cidade de Nova York.
RH Mas em Nova York a escravidão já havia sido abolida em 1845, não é?
PL Pois é. Então o nosso homem foi, felizmente, colocado para fora do navio e acabou numa prisão. Alguns amigos o tiraram de lá e o levaram para Boston, onde permaneceu escondido por dois anos. Depois foi cursar o ensino secundário. Mahommah foi um dos primeiros africanos a se formar e ir para o que chamamos de college nos EUA. E ele escreveu toda a sua biografia no Canadá em 1854. O que é bom para mim que seja alguém do Canadá. Três anos depois, foi para a Inglaterra. Não sabemos mais nada. O fio se perdeu. Sabemos somente que Mahommah queria voltar para a África, como muçulmano. Ele sempre quis retornar à África. É uma história maravilhosa... Uma história atlântica. Ele veio da África Ocidental, chegou ao Brasil, foi para os Estados Unidos, Canadá, Inglaterra. Como um canadense (risos).

Cordel em sala de aula

Nordestino, sim sinhô

Utilizando livros ou folhetos, professores vêm provando que a literatura de cordel é um instrumento multidisciplinar

Alice Melo
1/3/2012

  • Maria Rosimar Araújo é cordelista de corpo e alma. Sua paixão pelos versos é tão grande que faz questão de passá-la adiante, não só produzindo livretos nas feiras de Juazeiro do Norte, mas usando-os em sala de aula. Durante décadas, a cearense ensinou História a turmas do ensino fundamental e jamais hesitou em usar a literatura de cordel como instrumento de apoio – seja para falar dos engenhos de açúcar do Brasil Colônia ou para contar um pouco da participação do país na Primeira Guerra Mundial. Cordel, como ela lembra, “dá muito pano pra manga”. Hoje, Rosimar ainda leciona, mas de forma diferente: comanda oficinas que ensinam a teoria e a prática da literatura popular, aliando-as a outras disciplinas, como Artes, Português, Estudos Regionais e Afrodescendentes, dependendo do conteúdo do material utilizado.
     “Ói só [conta a cearense caprichando na oralidade, como todo bom cordelista], não existe professor de cordel. Você pode trabalhar a literatura em sala, mas não há um diploma em cordel. Porque o cordel vem de dentro da alma, é uma coisa sagrada. Quando a gente diz que há um facilitador para um trabalho de cordel, está pensando em ensinar a gramática, as sílabas métricas. Mostramos como ele funciona, sua tradição, e depois incentivamos os alunos a fazerem por eles mesmos o que aprenderam”.
     A iniciativa de Rosimar vem dando certo, mas não é a única bem-sucedida em Juazeiro, tampouco no Brasil: a cada ano, mais escolas públicas levam a literatura de cordel para junto dos alunos, principalmente por meio de trabalhos multidisciplinares, mediados por salas de leitura e bibliotecas. Muitas delas têm folhetos, mas não todas. Afinal, escolas públicas abastecem suas prateleiras por meio de editais, e adquirir livros é mais fácil do que comprar com verba extra o folheto, geralmente impresso de forma amadora.
    Percebendo isso, algumas editoras decidiram investir na ideia e vêm encomendando poemas escritos por cordelistas contemporâneos, transformando-os em livros paradidáticos – prontos para serem inscritos em solicitações de compra de Secretarias de Educação. Afinal, desde que a cultura popular brasileira começou a ser valorizada pela academia e incentivada nas práticas de ensino – coisa de 30 anos para cá –, o mercado editorial acompanhou o movimento, republicando, por exemplo, autores que se importavam com o tema e que antes eram renegados pelos intelectuais, como Gilberto Freyre e Câmara Cascudo – sucessos de venda nas livrarias hoje. O cordel parece seguir pelo mesmo caminho.
    Nessa trajetória, o papel pardo dobrado em formato 12 x18 cm foi substituído pelo papel cuchê em tamanho A4. E o mesmo aconteceu com a ilustração – a rudimentar xilogravura que reflete os traços duros na madeira foi trocada por desenhos feitos digitalmente, com cores vibrantes e contornos levemente arredondados, tudo feito sob medida para atrair o leitor jovem. Além disso, alguns títulos – que inclusive são inseridos em coleções temáticas – vêm acrescidos de um material de apoio ao professor, com dicas de como o conteúdo pode ser utilizado em determinadas turmas. Junto com o toque de requinte, o preço recebe uma pitada de sal: se um folheto tradicional, rodado em 1.000 exemplares, custa entre R$ 1,00 e R$ 5,00, o livro industrializado, nas prateleiras de uma livraria, pode ser comprado por preços que variam de R$ 30,00 a R$ 50,00, sendo impresso pelas editoras em tiragens de mais ou menos 3.000 unidades. Para circular nas escolas, este número cresce conforme a demanda.


    O livro paradidático, no entanto, não é um vilão. Pelo contrário. Ele ajuda a levar a cultura popular e o gosto pela leitura a muitos jovens e crianças, se utilizado da maneira correta. Ações que dão certo não faltam. Na periferia de São Paulo, no bairro de Cidade Tiradentes, por exemplo, a professora Ana Maria Diniz decidiu trabalhar, na sala de leitura de sua escola, a literatura de cordel como apoio à alfabetização de jovens e adultos. Utilizando tanto os folhetos quanto livros da biblioteca, Ana Maria estimulou a preservação das tradições de seus alunos, sendo homenageada pela Prefeitura de São Paulo, em 2009, com o prêmio Professor Destaque.
    Naquela época, ela tinha 350 alunos, a maioria nascida no Nordeste. Não foi difícil introduzir o cordel como instrumento principal da alfabetização. “Os alunos nordestinos vêm para a escola, e uma das coisas que percebemos é que alguns querem entender sua identidade. Muitos têm vergonha de ser retirantes. E o cordel tem a linguagem falada, conta histórias que estavam acostumados a ouvir, fala de paisagem que estavam acostumados a ver, as roupas, as tradições. E o mais legal é que eles perceberam que a escola dá valor a isso, a ponto de a norma culta reconhecer essa literatura matuta. Eles se identificaram muito rápido”.
    O processo foi longo: três meses. Na sala de leitura, Ana Maria trabalhava com compreensão dos poemas em grupo, e na sala de aula, outra professora dirigia a produção de textos coletivos. Nas classes de Informática, eles pesquisavam mais sobre os autores favoritos. Verso vai, verso vem, Ana Maria decidiu sugerir às turmas que convidassem um dos poetas mais estudados para visitá-los na festa de fim de ano: Moreira de Acopiara.  “Eles acharam ótimo, mas disseram que gente famosa não ligava para pobre, e que Moreira não viria”, lembra. Mesmo assim, os alunos mandaram cartas.
    Moreira recebeu o convite e decidiu responder logo, em forma de poesia, que estava confirmado no evento:

    Olá, professora Mara!
    Diga para os seus pupilos
     Que podem ficar tranquilos,
     Que eu vou me preparar para
     Botar um riso na cara,
     Esquecer a crise ingrata
     E essa correria chata
     Que às vezes nos descontrola,
     Para ir à sua escola.
     Basta só que marque a data.

    Em meio a risadas, o cordelista lembra o episódio: “Eles não esperavam que eu respondesse em versos. Foi sensacional. Cheguei lá e fui tratado como celebridade. Tinha comida nordestina, declamação de poesia, uma coisa muito legal”.
    Moreira é natural da cidade que lhe dá o nome: Acopiara, no Ceará. O cordelista escreve desde adolescente e tem mais de 200 títulos publicados em folhetos e 18 obras em livros. Ele conta que, antes de começar a trabalhar com os alunos, Ana Maria encomendou um kit com obras suas – folhetos e livros. E acredita que este intercâmbio de plataformas de conhecimento só tem a ajudar a educação no país.
    Outro cordelista muito procurado pelas editoras é Gonçalo Ferreira da Silva, presidente da Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC). Um de seus títulos, Naturalismo, foi comprado pelo Programa Minha Biblioteca, da Prefeitura de São Paulo, e é usado para trabalhar tanto História quanto Ciências e Literatura nas escolas. Essa obra, por exemplo, traz duas histórias, “Charles Darwin” e “A evolução do mundo”. Com elas, o professor pode explorar o conteúdo relacionado à Biologia, procurando explicar a vida como um processo evolutivo, ou explorar a forma como ele é apresentado – por meio dos versos na métrica do cordel. Antes de virar livro, Naturalismo surgiu em forma de livretos, vendidos a R$ 1,00 cada título, em feiras Brasil adentro e na ABLC, onde, aliás, ainda podem ser encontrados. A escrita permaneceu; o que mudou foi a forma. E o preço, claro.
    Sem cerimônia, Gonçalo explica por que as obras fazem sucesso. “É muito oportuno isso de ir para a escola. Fazemos numa linguagem sem manteiga, muito simples. Para qualquer criança ler, em várias disciplinas da escola. Porque criança não tem paciência pra coisa muito grande; tem que ter uma escrita atraente, um desenho bonito, e a gente junta isso num produto só”, diz.
     Mas nem toda poesia é literatura de cordel, e como identificá-la sem o seu suporte mais tradicional? A pesquisadora Ivone Maya, da Fundação Casa de Rui Barbosa, atenta para a oralidade dos versos e para a métrica. “Cada poeta escolhe sua métrica; geralmente as estrofes são feitas em quadras, porque é mais fácil. Mas a oralidade é o que predomina, porque a literatura de cordel é feita para ser lida em voz alta, coletivamente”, afirma.
    Então, se tiverem textos elaborados dentro das regras, os novos livros podem ser considerados literatura de cordel, apesar da nova apresentação e de outro preço. E é por isso que o trabalho com eles deve ser muito cuidadoso. O professor precisa se preparar e tentar comparar o novo suporte com o tradicional, contextualizar o material, perceber as relações entre a cultura escrita e a oral, explicar de onde vem, e não apenas estudar o conteúdo ali apresentado, embora isso também seja uma vertente possível. Como dizia a professora Rosimar, de Juazeiro, o cordel “dá muito pano pra manga”.

    SAIBA MAIS:
    MAYA, Ivone da Silva Ramos. Recortes contemporâneos sobre o cordel. Rio de Janeiro: Edições Casa de Rui Barbosa, 2008.
    SILVA, Gonçalo Ferreira da. Naturalismo. Rio de Janeiro: Rovelle, 2009.
    Internet:

Lembranças da opressão

Lembranças da opressão

Festival de filme de pesquisa no Rio discute a memória da escravidão, no dia 25 de abril

13/4/2012         Cultura,Diáspora e Cidadania
  • É  o tema do 4° Festival Internacional do Filme de Pesquisa sobre História e Memória da Escravidão Moderna, que ocorre no CCBB do Rio, na quarta (25 de abril), das 10h às 19h. O festival é organizado pelas historiadoras Hebe Mattos e Martha Abreu, professoras do Departamento de História da UFF; e conta com exibição de filmes durante o dia, além de sessões de debates ministradas pelas coordenadoras do evento.
  • Ao fim do dia será lançado um box com quatro DVDs, chamado Passado presente, que foi elaborados pelo Laboratório de História Oral e Imagem da UFF. A coletânea fala sobre a memória da escravidão entre os descendentes de escravizados das antigas áreas cafeeiras do Vale do Paraíba. O coquetel vai contar com a presença de representantes dos grupos Jongo de Pinheiral e do Bracuí – personagens de um dos documentários inéditos.
    A programação completa do evento está disponível no site do CCBB, que tem sede na Rua Primeiro de Março, 66 – Centro.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Dois dedos de prosa

A proposta que lhe faço
me deixa um pouco vaidosa:
Debater nossos pontos de vista,
em dois dedos de prosa!
Nossa prosa vai girar
em torno de nossos interesses,
debateremos nossas idéias,
que diferirão,muitas vezes;
Mas, em toda boa prosa,
onde cada um terá sua vez,
de expressar seus sentimentos, e defender seus argumentos;
o que vai importar mesmo serão os bons momentos
de alegria e descontração!
Pois o nosso objetivo
é discutir a Educação!
E,brindaremos no final
com um bom café e macaxeira,
a iniciativa e memória do nosso querido ANISIO TEIXEIRA

Cristina Maria Conceição cursista de Formação para o uso de Tecnologias Educacionais
NTE09

terça-feira, 10 de abril de 2012

Revista de História

História ao vivo

Apresentado por estudantes, programa de rádio noticia episódios históricos com clima de atualidade

Marcus Vinícius Leite
3/3/2010
  • Otacílio Neto, âncora da Rádio História, interrompe o programa para transmitir uma informação urgente vinda da Europa no dia 13 de agosto de 1961. “Recebemos uma notícia diretamente da Alemanha, sobre a construção de uma cerca de aproximadamente 66,5 quilômetros, que divide Berlim em dois blocos: um ocidental, que tem economia capitalista, e outro oriental, sob influência socialista. A cerca foi construída durante esta madrugada por soldados da área soviética”, relata o apresentador.

    Ainda no calor dos acontecimentos, a correspondente internacional Belisa entrevista um morador de Berlim. Depois de sua resposta em alemão, ela traduz: a impressão é de que o muro é uma tentativa de evitar a fuga em massa da população para o lado ocidental da cidade. “É uma crueldade, pois separa famílias e amigos”, desabafa Rafael, o berlinense.

    O programa convida ainda uma especialista para analisar a questão. “Estamos vivenciando um fato que será muito importante não somente na Alemanha, mas em todo o mundo”, afirma Chiara. A comentarista revela-se profética quanto às consequências do acirramento da Guerra Fria para o Brasil: “São apenas hipóteses, mas penso que estamos próximos de um novo golpe militar”.

    Responsáveis por esse furo de reportagem, Otacílio, Belisa, Chiara e até o “alemão” Rafael são alunos do 8º ano do ensino fundamental, e a Rádio História é fruto de um projeto desenvolvido em sua escola, a Fundação Torino, em Belo Horizonte. Em viagens no tempo e no espaço, a rádio acompanha “ao vivo” os acontecimentos que marcaram a História do Brasil e do mundo: a queda da monarquia brasileira (1889), as batalhas no arraial de Canudos (antes mesmo de o correspondente Euclides da Cunha aparecer por lá), a Revolta da Vacina (1904), no Rio de Janeiro (embora a assessoria de Oswaldo Cruz tenha se recusado a atender a reportagem), o crash da Bolsa de Nova York (1929), o assassinato do presidente da Paraíba, João Pessoa (1930). Onde (e quando) quer que haja notícia importante, lá está a equipe de transmissão.

    A ideia de uma rádio que fosse de fato “testemunha ocular da História” – como se intitulava o programa “Repórter Esso” (1941-1968) – nasceu da constatação da intimidade que os estudantes têm com diversas ferramentas tecnológicas. A proposta de construção colaborativa de uma rádio virtual abriu a possibilidade de reunir o uso de softwares de gravação e edição de áudio e a publicação das notícias por meio de um blog na Internet. Acima de tudo, manteve-se a principal ferramenta de qualquer trabalho prático com essa faixa etária: sua criatividade.

    O primeiro boletim da rádio foi produzido com três alunos, em segredo. Reunida no laboratório de informática da escola, a turma foi apresentada ao resultado e teve claramente a ideia de como uma rádio virtual pode funcionar. A segunda etapa foi o trabalho feito em sala de aula para a divisão de grupos e pautas de cada um. Não faltavam períodos históricos recheados de contradições e revoltas para inspirar a cobertura dos boletins da rádio. Eleitos os temas dos primeiros programas, passou-se para as outras etapas do trabalho: estudo em classe, pesquisa complementar por parte dos alunos, produção dos textos, correção pelo professor e, finalmente, a gravação, a edição e a postagem do tema em um site criado para isso.

    O desafio na fase inicial do projeto foi tentar fazer com que os alunos compreendessem a surpresa e o envolvimento de quem vivenciou determinados episódios marcantes, transmitindo a intensidade daquele momento e os diferentes pontos de vista da sociedade da época. Para isso era preciso “libertar” alguns estudantes das amarras dos livros didáticos. Daí o valor da pesquisa complementar e a importância de reescrever os primeiros textos apresentados por alguns grupos.

    A criação de uma rádio virtual só é possível graças à tecnologia dos podcasts.  O termo é uma junção da palavra iPod (tocador de MP3 predileto dos jovens) e broadcasting (transmissão de dados via rádio ou TV). Os podcasts podem ser acessados por meio da visita ao site onde estão abrigados ou pela utilização da tecnologia de RSS, pela qual o usuário recebe novos arquivos sempre que o site é atualizado.
    Para botar a rádio “no ar”, são necessários poucos recursos: um computador com ferramentas de multimídia, software para edição de arquivos de áudio e acesso à Internet. A Rádio História funciona em um blog – www.radiohistoriaft.blogspot.com –, onde qualquer um pode ouvir os boletins.

    Para a gravação e a edição dos arquivos de áudio, é utilizado um software de licença livre, o Audacity. As produções são feitas pelos alunos no laboratório de informática da escola, sem a presença do professor. Uma vez gravados os boletins, a etapa final é de responsabilidade do professor, já que a edição e a postagem devem caber ao profissional de educação.

    Além das vozes de apresentadores, repórteres e entrevistados, os boletins são incrementados com efeitos sonoros relacionados ao evento relatado. Na cobertura da terceira expedição enviada a Canudos, por exemplo, sons de artilharia são ouvidos ao fundo. Já a repórter que cobria na rua a Revolta da Vacina foi interrompida pelo barulho da baderna que tomou conta da capital federal. Chega-se a ouvir um bonde tombando. A sonoplastia transmite a impressão de que o repórter realmente fala do local onde ocorreram os fatos, enriquecendo o resultado final. O único cuidado que se deve ter é o de utilizar sons ou canções com licença gratuita, para evitar qualquer problema legal devido a possíveis direitos autorais. Existem sites na Internet que fornecem conteúdo gratuito, mas o ideal é poder contar com o auxílio dos professores de música, caso a escola tenha algum.
    A etapa mais difícil ligada ao processo tecnológico foi abrigar o arquivo de áudio em uma página da Internet. Nem todos os blogs permitem publicar diretamente esse tipo de arquivo. A solução é inserir o podcast em um site feito para isso – como o www.goear.com, que, após breve cadastro, incorpora os arquivos em MP3 e fornece um código a ser inserido no blog. O resultado é ótimo: o arquivo aparece com o visual de um tocador de áudio – para ouvir, basta apertar o play.

    A rádio é um prato cheio para o exercício da interdisciplinaridade. Diversos conteúdos se prestam a boletins históricos. Eles podem divulgar o lançamento de clássicos da literatura brasileira, por exemplo, e já se produziu um “informe cultural” acompanhando as novidades da Semana de Arte Moderna de 1922. Boletins históricos são enriquecidos com informações geopolíticas e línguas estrangeiras são trabalhadas em contextos específicos. Ao falar da construção e da queda do Muro de Berlim, o uso do alemão foi mais que bem-vindo. Muito úteis serão o italiano e o inglês quando o tema for a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial e o conflito como um todo.

    No blog, uma enquete determinou a estreia do futebol na programação da Rádio História. Os alunos votaram no clássico do futebol mineiro que mais desejavam cobrir: um Cruzeiro x Atlético de 1967, que terminou em 3 a 3. Além do jogo em si, o boletim trará o serviço completo, com comentários sobre a situação política do Brasil na época, sob o governo militar.

    No fim das contas, a criação dos alunos transforma-se, ela própria, em material didático. É possível utilizar os boletins produzidos em um ano letivo para abrir as aulas sobre o mesmo tema nos anos seguintes.

    Talvez assim a frase “Detesto História” ou sua correlata mais suave, “Professor, não gosto de História”, possam sair de circulação em nossas salas de aula. Com algumas doses de tecnologia, interatividade e criatividade, o retorno dos alunos é bem diferente: “Muito bacana, professor. Um jeito novo de estudar, aprofundar a matéria e rir em casa”, comentou um deles no blog. Mais um ouvinte impactado depois de um boletim extraordinário da Rádio História.

    Marcus Vinícius Leite é professor da Fundação Torino – Escola Internacional em Belo Horizonte (MG).

    Saiba Mais - Bibliografia

    ALMEIDA, Fernando José de, e JÚNIOR, Fernando Moraes Fonseca. Aprendendo com Projetos. Coleção Informática para a Mudança na Educação, USP e Estação Palavra.
    Disponível no site http://www.escola2000.net/eduardo/paginas/textproinfo.htm

    ALMEIDA, Fernando José de. Educação e Informática – Os computadores na escola.
    São Paulo: Cortez, 2005.

    KLOCKNER, Luciano. O Repórter Esso – A Síntese Radiofônica Mundial que fez História. Porto Alegre: EdiPUCRS/Age, 2008.
           VALENTE, José Armando (org.). Computador na sociedade do conhecimento. Campinas: Unicamp/Nied, 1999.


    Saiba Mais - Internet

    Rádio História
    http://www.radiohistoriaft.blogspot.com/

    Dicas para montagem de podcasts
    http://info.abril.com.br/aberto/especiais/col2005-podcasts.pdf

    Guia para montagem de podcasts
    http://www.acessa.com/informatica/arquivo/tecnologias/2005/08/12-podcast/

    Montagem de blog na Internet
    http://www.blogger.com/

    Site que abriga podcasts
    http://www.goear.com/

    Sites de efeitos sonoros
    http://www.soundsnap.com/
    www.pacdv.com/sounds

Bela Iniciativa

Aula virtual

Professor de História do Paraná disponibiliza aulas compactas em site da internet. Material serve de apoio para estudar para provas e concursos

Alice Melo
27/2/2012
  • Manter os alunos interessados na aula é sempre uma árdua tarefa enfrentada pelo professor diariamente. Tal missão é ainda mais difícil quando o assunto é fazer com que os estudantes se sintam motivados para estudar o conteúdo apresentado em sala, fora dos muros da escola. Ao perceber que a competição com celulares, computadores e, principalmente, com a internet, estava ficando mais difícil nessa empreitada, um professor de História do Paraná decidiu se infiltrar no campo de batalha inimigo. Desde o ano passado, Irenilson Lubacheski grava suas próprias aulas em casa com uma câmera e disponibiliza os vídeos na internet para que seus alunos utilizem o material como apoio na hora de estudar em casa.
    “Todos adoraram a iniciativa”, conta Irenilson. “Eles assistem na véspera do exame e recordam as anotações feitas em sala através dos vídeos. Abordo somente aquilo que é relevante estudar para provas e concursos”.

    Tudo começou quando o professor percebeu que o áudio de suas aulas em um colégio particular era frequentemente gravado por alguns estudantes. Para facilitar o trabalho dos jovens, ele decidiu filmar em casa aulas com cerca de quinze minutos sobre temas trabalhados na escola e, depois, publicar na intranet da instituição. Mas Irenilson não leciona apenas na rede particular.  E queria que suas turmas da rede pública também tivessem acesso à ideia. Foi quando decidiu democratizar o material:
    “Os alunos da escola pública não têm tantos privilégios quanto os da escola particular: eles não têm material apostilado ou de fácil aquisição; o livro didático, muitas vezes, é falho; não têm acesso a exercícios objetivos de pré-vestibular... Além disso, no Ensino Médio da rede pública, os alunos assistem a apenas duas aulas semanais de História, enquanto na rede particular é o dobro! Por isso, resolvi postar minhas aulas no YouTube. Agora, jovens de todo o Brasil também podem ter acesso”.
    A civilização da Mesopotâmia, o direito no Brasil Colônia, os principais pontos dos governos de Médici, Jânio Quadros e João Goulart já estão disponíveis na conta criada pelo professor, que vem sendo turbinada com mais vídeos desde fevereiro, quando recomeçou o ano letivo.

      
    “Tenho certeza que muitos alunos nunca abriram o material didático em casa e vivem na internet. Para esse público, é muito mais prazeroso assistir a um resumo no YouTube do que ler as anotações ou a apostila do curso. Esse é o meu alvo! Acertar os viciados em tecnologia, pois sem essa modalidade de aulas eles não irão estudar. Para os alunos que anotam tudo, fazem os exercícios e leem o material didático, as vídeo aulas são mais um complemento, mais uma oportunidade de estudo. Será perigoso para o futuro desses discentes se os professores não observarem isso e notarem que estão sendo “engolidos” pela tecnologia”, finaliza.
    Irenilson aceita sugestões de temas de aula. Para enviá-las ou assistir aos vídeos, acesse a página dele no YouTube.

Cine História- Xingu

Irmãos coragem

Nos cinemas a partir desta sexta (6), o nacional Xingu narra a aventura dos irmãos Villas-Bôas no interior do país, além de mostrar a luta dos protagonistas pela criação do Parque Nacional do Xingu

Rodrigo Elias
5/4/2012
  • Xingu
    Dir.: Cao Hamburger. Brasil, 2012.

    O Brasil foi inventado algumas vezes, desde o século XV. Talvez tenha sido outras vezes antes disso, mas é difícil para o historiador averiguar esta hipótese. O que sabemos, entretanto, é que as recorrentes invenções obedecem a propósitos bem específicos.
    A primeira invenção registrada, em 1500, dava conta da expansão do cristianismo e de um novo modelo econômico europeu, ligado ao que se tornava um comércio global. Outras invenções, entre os séculos XIX e XX, geralmente de caráter oficial, trataram de assegurar um domínio territorial vastíssimo a elites políticas e econômicas localizadas no sudeste do país. Inventou-se um país, um Estado e, por último, uma nação. Neste processo, conflitos entre grupos foram abafados, vozes desviantes do projeto central foram caladas e um numeroso contingente populacional desapareceu pra sempre sob o redutor, violento e falso rótulo de “povo brasileiro”.
    O filme de Cao Hamburger, com base na aventura dos irmãos Villas-Bôas (Orlando, Cláudio e Leonardo), trata de outra tentativa de invenção do país. Saga que se desenvolve entre as décadas de 1940 e 1970, a trajetória dos sertanistas é marcada pela recusa a um projeto nacional que impôs o discurso (e a dolorosa prática) do desenvolvimento.
    Guiado pela perspectiva do irmão do meio, Cláudio (interpretado por João Miguel), a narrativa têm início na década de 1940, quando mergulharam na Expedição Roncador-Xingu, durante o governo Vargas, e chega aos desdobramentos da política desenvolvimentista do regime militar, com suas obras monumentais de “integração” nacional. No meio do caminho, há uma luta liderada pelos Villas-Bôas para a criação do Parque Nacional do Xingu (hoje Parque Indígena do Xingu), primeira terra indígena reconhecida pelo governo brasileiro, em 1961, por meio de decreto de Jânio Quadros – façanha ainda mais significativa por se tratar de um território comparável ao da Bélgica, em uma região que havia se tornado uma grande fronteira agrícola exposta à sanha de grandes latifundiários.

    Fotografia belíssima
    A história contada falha, entretanto, ao reservar pouco espaço para a importante atuação do igualmente heroico Darcy Ribeiro – preço que se paga ao se contar quarenta anos em duas horas.
    Notoriamente o mais “ideológico” dos irmãos, Cláudio, vive em crise de consciência, resultado de uma certa concepção romântica e purista em relação aos grupos indígenas. Ao mesmo tempo que trabalha a favor de uma integração saudável para estes grupos, recorrendo às vezes a métodos bastante enérgicos, duvida da possibilidade de qualquer consequência positiva para estas populações, em uma descrença na sociedade dita civilizada que faria boa vista a H. D. Thoreau. Esta aparente contradição – uma tentativa de adequar a utopia com o mundo possível – dá ao filme uma densidade raramente vista em dramas históricos filmados entre nós.
    O filme é belíssimo, tanto no seu aspecto visual como na abordagem dos temas. A fotografia de Adriano Goldman explora com inteligência a iluminação natural, o sol inclemente e a exuberância da natureza na região do Xingu. Os planos abertos, que fazem o expectador ser soterrado por um gigantesco e indomável mundo verde, ajudam a definir os contornos de uma verdadeira epopeia. A forma como o roteiro e a direção constroem os personagens, deixando evidente a sua humanidade, tanto a dos Vilas Boas quanto a dos indígenas, dá à obra ficcional a verossimilhança minimamente necessária ao observador interessado – os Villas-Bôas têm conflitos de opinião e agem de forma nem sempre compatível com a imagem tradicional de heróis; os indígenas, quase sempre retratados de maneira passiva e meramente reativa, surgem na obra de Hamburger como protagonistas da sua trajetória, lutando, negociando, opinando – entre estes, aliás, destaque para o impoluto Prepori, vivido com maestria pelo estreante ator indígena Maiarim Kaiabi. Talvez este seja um feliz ponto sem retorno para as narrativas sobre os grupos historicamente oprimidos – é impossível desumanizar completamente o que é essencialmente humano.
    Como qualquer obra decorrente de uma perspectiva autobiográfica, existe uma tendência ao elogio. Orlando (Felipe Camargo), o irmão mais velho, que assume a direção do processo de integração em uma dura batalha para reduzir as perdas dos grupos contatados – o “pragmático”, portanto – tem suas atitudes constantemente contrastadas com o purismo quase santo (apenas quase, considerando-se que a castidade é geralmente uma característica das figuras canonizadas) de Cláudio.
    Personagens tratados como heróis
    O jovem e intrépido Leonardo (Caio Blat), que se envolve com uma mulher índia e acaba deixando os irmãos, morrendo prematuramente de causas naturais em 1961, aparece quase como um rebelde que coloca suas vontades pessoais acima de um ideal maior.
    Há, é claro, o triunfo da versão heroica da presença dos irmãos na região – que não é a única versão disponível, a julgar pela narrativa de um episódio envolvendo Leonardo, que veio à tona na década de 1980 com o depoimento do filho de um chefe e pajé kamayurá. O jovem Villas-Bôas teria mantido uma relação ilícita, pública e de exclusividade com Pele de Reclusa, uma das mulheres do chefe, o que, entre outras coisas, fez com que ela fosse coletivamente estuprada pelos homens da aldeia como forma de punição.
    Este filme, entretanto, não deve ser um ponto final na história. Ao contrário: suas muitas qualidades, além de servirem como uma baita diversão – com as tiradas espirituosas de Orlando, a tensão afetiva e sexual do encontro, a aventura rumo ao desconhecido e o espetáculo visual –, levantam questões para reflexão, discussão e ação no nosso tempo. Como a saga dos Vilas Boas ainda pode motivar ações democráticas em um país desigual? O que é progresso? Qual o Brasil que queremos? Deve haver vozes vencedoras e perdedoras no país que recorrentemente inventamos? Há grupos mais humanos do que os outros?
    Em um tempo no qual a tolerância – não apenas étnica, mas em todos os sentidos – não é nada além de um discurso bastante distante da nossa realidade violenta, é útil lembrar e divulgar a trajetória de brasileiros que deram suas vidas para realizar um ideal de igualdade e inventar um país em sintonia com uma concepção mais justa de “povo brasileiro”. A noção de que todos os humanos valem a pena, não importa o quão diferentes sejam entre si, faz de Xingu um filme extremamente necessário.
        

Calendário sobre Revolta dos Búzios

05/03/2012
A Secretaria da Educação do Estado da Bahia distribui, este ano, para todas as escolas estaduais, um calendário especial em memória à Revolta dos Búzios, também chamada de Revolução dos Alfaiates, Conjuração Baiana, Sedição de 1798 ou Inconfidência Baiana. O calendário foi produzido em formato de almanaque pelo cineasta, fotógrafo e pesquisador Antonio Olavo que, nos seis últimos anos, se debruçou sobre a história da Bahia e do Brasil para levantar dados sobre este capítulo da luta popular pela independência do país, ocorrido em Salvador no ano de 1798.
O calendário é parte das ações da Secretaria da Educação do Estado para implantar as Leis nº 10.639/2003 e 11.654/2008, que estabelecem as diretrizes e bases da educação nacional de inclusão, no currículo oficial da rede de ensino, a obrigatoriedade da temática História e Cultura Afro-Brasileira e indígena. O calendário será distribuído para todas as escolas, também, em formato digital para facilitar seu uso em sala de aula, por professores e estudantes.
História- “A Revolta dos Búzios é um movimento que precisa ser nacionalizado. Traz um passado de glória e luta, que se contrapõe a essa ideia difundida de passado de escravidão”, afirma o cineasta Antonio Olavo, ressaltando que “somos descendentes de homens e de mulheres que lutaram pela liberdade. A memória negra tem que ser valorizada. Os estudantes precisam se identificar com coisas boas, que elevem sua autoestima”, completa.
O calendário “Revolta dos Búzios” destaca a luta de quatro mártires da Inconfidência Baiana condenados à morte, tendo sido enforcados e esquartejados na Praça da Piedade, em 8 de novembro de 1799. São eles: os soldados Luiz Gonzaga e Lucas Dantas e os alfaiates João de Deus e Manoel Faustino, incluídos, recentemente, no Panteão dos Heróis nacionais com a sanção da Lei nº 12.391, pela presidente Dilma Rousseff.
A pesquisa histórica recria a atmosfera da cidade, capital da Província da Bahia, no final do século XVIII. Cada página contextualiza aspectos distintos da Revolta dos Búzios. Como fonte de pesquisa, o autor utiliza os Autos da Devassa, documento com mais de duas mil páginas originado de um rito processual que vigorou no Brasil até a promulgação do Código Criminal do Império. Além da Devassa, apresenta, também, as passagens mais marcantes da Revolta dos Búzios, como a Conspiração, O Papel dos Revolucionários e A Reunião do Dique.
Com design gráfico de Raimundo Laranjeira e desenhos de Fábio Chamusca, o calendário pretende motivar a comunidade escolar para o interesse pela leitura e pelos fatos que marcam a trajetória do povo brasileiro até a derrubada do Governo Colonial e conquista da liberdade política, econômica e social sustentada pela República democrática.
Fonte:http://www.educacao.escolas.ba.gov.br/node/3147

Salvador,uma linda velhinha de 463 anos

Aniversário de Salvador – 463 anos de História

29/03/2012
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Em 1509 Diogo Álvares, após sobreviver a um naufrágio atracou numa faixa de terra onde hoje é o alto da Graça. Ali ele teve os primeiros contatos com os nativos, entre eles a índia Paraguaçu, a qual tempos mais tarde viria a ser sua esposa.
A chegada de Diogo Álvares é tida como a primeira presença europeia nas terras de Salvador da Bahia de Todos os Santos.
Passados quase 50 anos da chegada de Caramuru, em 1548 o rei de Portugal D. João III ordenou que fosse erguida a cidade de São Salvador como sede da administração portuguesa com intuito de desenvolver através dela mudanças na estrutura política que acelerasse o crescimento econômico da colônia.
E, em 29 de março 1549 Thomé de Souza – Primeiro Governador Geral do Brasil, desembarcou acompanhado de cerca de mil homens responsáveis pela construção da cidade, entre eles os jesuítas, com a tarefa de catequizar os índios. Nascia ali a primeira capital do Brasil, criada de forma estratégica para ser uma fortaleza onde se pudesse ter ampla visão da Bahia de Todos os Santos e assim se proteger de possíveis invasões.
De lá para cá, muitas mudanças ocorreram, a população se multiplicou e com a vinda dos africanos fez de Salvador a maior população negra fora do continente africano. As estruturas físicas, políticas e sociais da cidade passaram por profundas transformações, tendo momentos históricos como as invasões holandesas, revoltas como a dos Alfaiates e dos Malês, momentos políticos marcantes que, juntos a outros eventos ocorridos aqui e, que contam muito da História do Brasil.
Salvador, sempre chamou atenção tanto por suas belezas naturais como pelas magníficas construções arquitetônicas que lhe rendeu o título de cidade histórica, tombada pelo patrimônio cultural da humanidade.
O Pelourinho, o Elevador Lacerda, o Mercado Modelo, o Forte de São Marcelo, a Igreja do Bonfim, os Faróis de Itapuã e da Barra, são só alguns exemplos da diversidade cultural da nossa capital.
Por isso, convidamos vocês para que conheçam um pouco mais da história dessa cidade tão importante em todos os aspectos, para cada um de nós brasileiros, sobretudo os baianos. Clique aqui

Parabéns a todos os soteropolitanos.

domingo, 1 de abril de 2012

Cine História

Anatomia das sombras

“Dançando no escuro” é um soco no estômago do espectador. Nos EUA dos anos 1960, uma imigrante tcheca leva uma vida sofrida e medíocre, acreditando ainda que aquele é o melhor dos mundos

Bruno Garcia
29/3/2012


  • Dançando no escuro
    Dir.: Lars Von Trier. Suécia, Dinamarca, EUA, 2000

    Em 2000, quando o polêmico dinamarquês Lars Von Trier lançou Dançando no escuro, a crítica internacional ficou dividida entre os que julgaram o filme uma obra prima e os que acusaram o diretor de manipular um sentimentalismo ao esmagar cruelmente a protagonista. Acusação um tanto curiosa para um musical. Mas quem conhece a trajetória do cineasta sabe que destruir tanto personagens quanto espectadores tem sido sua especialidade – característica que se comprova nos longa-metragens posteriores, Dogville (2003) e Anticristo (2009). Mas nada deste desconforto é gratuito.
    Em Dançando no escuro, a imigrante tcheca, Selma Jezková (interpretada pela islandesa Björk), vive em uma pequena cidade dos Estados Unidos nos anos 1960 e trabalha diariamente para pagar uma cirurgia para o filho que sofre da mesma doença degenerativa que a deixa cega. Guardando cada centavo para o investimento, Selma vive sem luxo, num trailer alugado na propriedade de um casal. O interessante desde o início é reparar que Selma ocupa um papel diferente dos desempenhados por protagonistas em filmes convencionais - já que Von Trier, nesta narrativa, dá bem  mais corpo e profundidade aos coadjuvantes.
    Nas horas vagas, ela e Kathy, sua melhor amiga (Catherine Deneuve) vão ao cinema local e ensaiam “A noviça rebelde” numa companhia de teatro amadora. De dia, as duas trabalham numa metalúrgica com uma rotina repetitiva e enfadonha. Lentamente, a cegueira da imigrante aumenta e todas as vezes em que sua vida chega num ponto sem saída, ela se imagina dentro de um musical, transformando os sons de seu dia a dia entediante em música.
    Quem faria mal a uma criatura tão pura e inofensiva? A empatia criada entre espectador e personagem se esfacelam em determinado ponto da narrativa com o soco no estômago dado por Von Trier. E, aos poucos, o cuidado do diretor com os personagens periféricos aumenta: eles abandonam o papel auxiliar e invertem a relação com a principal. A centralidade de Selma serve apenas de apoio por onde orbitam seus vizinhos, melhor amiga, pretendente, filho. Não vou estragar a surpresa e detalhar com rigor a falta de escrúpulos que se segue A intenção aqui não é a de desencorajar os que ainda não viram o filme. Pelo contrário!
    Monstruosidade do todo
    A sugestão é de que seja feito o mesmo movimento do diretor: foco na monstruosidade do todo, não na tragédia da protagonista. O que parece importar a Von Trier é a constatação manifesta daquilo chamado por alguns da “parte obscura em nós mesmos”. Se, por um lado, o enredo parece caminhar verticalmente para uma catástrofe inevitável, a maldade a ser destacada pelo conjunto da obra não se encontra no destino de Selma. A suposta protagonista não passa de um personagem opaco e raso. Não reage à matéria vida, à teia de relações de forma que todo traço pessoal de autodefesa, desejo ou mesmo a razão instrumental estão sempre ausentes. Cada vez mais Bjork se apresenta menos como personagem central e mais como cenário por onde rondam teias de intrigas que descortinam com clareza o moralismo sobre o qual relações de autopreservação e interesse se escondem.
    Selma imigra da Tchecoslováquia comunista para os Estados Unidos com um discurso cândido de que vive agora no melhor dos mundos possíveis. A ironia não é por acaso. Ainda que vivamos no melhor dos mundos, ainda que seja com um personagem absurdo, a maldade e a perversidade estão sempre presentes.
    Afinal, do que acusar Von Trier? O sofrimento de Selma pode comover, mas não acredito que produza um sentimentalismo barato. A violência da narrativa se concentra numa proximidade perturbadora com um real recalcado, com uma maldade incompatível com nossas ficções de felicidade. Gostando do filme ou não, dificilmente alguém fica indiferente à história. Suspeito que mais pela sinceridade com que o diretor esmiúça as sombras de uma crueldade partilhada por todos, do que pelo destino quase sempre trágico de seus protagonistas.

Quarenta e oito anos do Golpe Militar

Abaixo o silêncio

Manifestação popular contra comemoração dos 48 anos do golpe militar reforça a necessidade de uma discussão ampla e clara sobre os tempos da ditadura

Nashla Dahas
30/3/2012

  • Na tarde desta quinta (29), cerca de 300 militares se reuniram para comemorar os 48 anos do golpe militar de 1964, na sede do Clube Militar, no Centro do Rio de Janeiro. A reunião dos oficiais da Reserva incitou uma manifestação de centenas de civis, que se dirigiram à frente do clube, munidos de fotos de desaparecidos políticos, aos gritos de “torturadores” e “golpe não é revolução”.
    As rememorações e os protestos parecem motivados por uma causa comum, por um compromisso latente, uma inquietação que vem do estômago e pode produzir tanto a indignação quanto o sorriso e o orgulho, a ordem ou a confusão.
    Embora a historiografia brasileira seja responsável por ampla bibliografia voltada para o tema do golpe de 1964, suas raízes e consequências, os acontecimentos recentes demonstram a existência de questões por serem resolvidas, perguntas e discussões que só puderam ser formuladas com o tempo, pelo distanciamento e, sobretudo, pelas novas gerações. Há 30 anos seria impensável olhar para os militares com ironia e empunhar cartazes quase à ponta dos narizes daqueles senhores fardados. Estas são posturas tomadas por quem conhece os direitos de uma Constituição selada por ambos os lados em 1988.
    Talvez, uma das mais fortes heranças da ditadura militar seja a negação da discussão pública sobre o período. A censura então instalada é hoje tema bastante conhecido e sempre levantado quando se trata de defender o “Nunca Mais!”, ou de consagrar a liberdade de expressão como valor ético e político do presente. No entanto, as versões históricas e as memórias dos anos de 1960 e 70 parecem ainda restritas ao meio acadêmico, a certos grupos de militantes e militares, e às poucas placas comemorativas, filmes e algumas leis de reparação que surgiram de lá para cá.
    Discussão sobre impunidade
    Há quem busque reconhecer a luta de muitos idealistas que perderam os seus 25 anos, outros querem sensibilizar a sociedade para um tema que repercute na identidade política do país. Setores do atual governo tentam restaurar a discussão sobre a impunidade dos crimes contra a humanidade, e movimentos sociais se esforçam para garantir indenizações aos familiares de presos políticos, exilados e torturtados à época. Uns comemoram a vitória política que obtiveram em 1964, os projetos políticos e econômicos então viabilizados, a anistia que satifez uma parcela considerável da oposição, os meios que utilizaram para garantir o essencial da ordem que desejavam. Demandas diferentes, causas distintas e objetivos contrários que compõem a sociedade brasileira, motivo pelo qual a ditadura não durou 20 dias, a anistia foi legítima, assim como qualquer manifestação contemporânea e pacífica em nome da verdade.
    Nesse contexto, a Comissão da Verdade parece um instrumento fundamental para criação de uma esfera de publicidade dos acontecimentos, traumas e ressentimentos, que por meio das narrativas, podem contribuir para a construção e reconstrução de laços sociais. Dar voz às partes envolvidas e torná-las sujeitos explícitos de nossa história será certamente um passo para que teses acadêmicas, opiniões pessoais, e memórias oficiais se voltem para a realidade, e denunciem os significados vivos deste debate. Trata-se de um caminho possível para o aprimoramento de valores democráticos.

  • O caso da África do Sul
    Bom exemplo para reflexão do que está acontecendo no Brasil pode ser encontrado na reconciliação Sul Africana dos anos de 1990. Confiante na capacidade de apaziguamento do perdão, teve como pressuposto a condenação moral dos crimes do apartheid e a reconciliação política como condição necessária para um futuro mais plural e menos violento. Neste caso, o amplo conhecimento sobre a realidade anterior e o foco nos casos mais graves de violações dos direitos humanos foram as possibilidades encontradas para rever o cotidiano de segregação exposto pelas narrativas emocionadas da Comissão.
    Tarefa difícil esta de lidar com um passado que orgulha ou envergonha dependendo de para onde se olhe, passado que divide e responsabiliza, torna mártir do presente ou assassino da história. A ideia fundamental é que toda a atual discussão possa ajudar a sensibilizar a sociedade e as futuras gerações sobre a gravidade dos acontecimentos, fornecendo aos cidadãos a chance de reconhecer e de se impor diante de qualquer prática abusiva.

    *Nashla Dahas é pesquisadora da Revista de História da Biblioteca Nacional