domingo, 1 de abril de 2012

Cine História

Anatomia das sombras

“Dançando no escuro” é um soco no estômago do espectador. Nos EUA dos anos 1960, uma imigrante tcheca leva uma vida sofrida e medíocre, acreditando ainda que aquele é o melhor dos mundos

Bruno Garcia
29/3/2012


  • Dançando no escuro
    Dir.: Lars Von Trier. Suécia, Dinamarca, EUA, 2000

    Em 2000, quando o polêmico dinamarquês Lars Von Trier lançou Dançando no escuro, a crítica internacional ficou dividida entre os que julgaram o filme uma obra prima e os que acusaram o diretor de manipular um sentimentalismo ao esmagar cruelmente a protagonista. Acusação um tanto curiosa para um musical. Mas quem conhece a trajetória do cineasta sabe que destruir tanto personagens quanto espectadores tem sido sua especialidade – característica que se comprova nos longa-metragens posteriores, Dogville (2003) e Anticristo (2009). Mas nada deste desconforto é gratuito.
    Em Dançando no escuro, a imigrante tcheca, Selma Jezková (interpretada pela islandesa Björk), vive em uma pequena cidade dos Estados Unidos nos anos 1960 e trabalha diariamente para pagar uma cirurgia para o filho que sofre da mesma doença degenerativa que a deixa cega. Guardando cada centavo para o investimento, Selma vive sem luxo, num trailer alugado na propriedade de um casal. O interessante desde o início é reparar que Selma ocupa um papel diferente dos desempenhados por protagonistas em filmes convencionais - já que Von Trier, nesta narrativa, dá bem  mais corpo e profundidade aos coadjuvantes.
    Nas horas vagas, ela e Kathy, sua melhor amiga (Catherine Deneuve) vão ao cinema local e ensaiam “A noviça rebelde” numa companhia de teatro amadora. De dia, as duas trabalham numa metalúrgica com uma rotina repetitiva e enfadonha. Lentamente, a cegueira da imigrante aumenta e todas as vezes em que sua vida chega num ponto sem saída, ela se imagina dentro de um musical, transformando os sons de seu dia a dia entediante em música.
    Quem faria mal a uma criatura tão pura e inofensiva? A empatia criada entre espectador e personagem se esfacelam em determinado ponto da narrativa com o soco no estômago dado por Von Trier. E, aos poucos, o cuidado do diretor com os personagens periféricos aumenta: eles abandonam o papel auxiliar e invertem a relação com a principal. A centralidade de Selma serve apenas de apoio por onde orbitam seus vizinhos, melhor amiga, pretendente, filho. Não vou estragar a surpresa e detalhar com rigor a falta de escrúpulos que se segue A intenção aqui não é a de desencorajar os que ainda não viram o filme. Pelo contrário!
    Monstruosidade do todo
    A sugestão é de que seja feito o mesmo movimento do diretor: foco na monstruosidade do todo, não na tragédia da protagonista. O que parece importar a Von Trier é a constatação manifesta daquilo chamado por alguns da “parte obscura em nós mesmos”. Se, por um lado, o enredo parece caminhar verticalmente para uma catástrofe inevitável, a maldade a ser destacada pelo conjunto da obra não se encontra no destino de Selma. A suposta protagonista não passa de um personagem opaco e raso. Não reage à matéria vida, à teia de relações de forma que todo traço pessoal de autodefesa, desejo ou mesmo a razão instrumental estão sempre ausentes. Cada vez mais Bjork se apresenta menos como personagem central e mais como cenário por onde rondam teias de intrigas que descortinam com clareza o moralismo sobre o qual relações de autopreservação e interesse se escondem.
    Selma imigra da Tchecoslováquia comunista para os Estados Unidos com um discurso cândido de que vive agora no melhor dos mundos possíveis. A ironia não é por acaso. Ainda que vivamos no melhor dos mundos, ainda que seja com um personagem absurdo, a maldade e a perversidade estão sempre presentes.
    Afinal, do que acusar Von Trier? O sofrimento de Selma pode comover, mas não acredito que produza um sentimentalismo barato. A violência da narrativa se concentra numa proximidade perturbadora com um real recalcado, com uma maldade incompatível com nossas ficções de felicidade. Gostando do filme ou não, dificilmente alguém fica indiferente à história. Suspeito que mais pela sinceridade com que o diretor esmiúça as sombras de uma crueldade partilhada por todos, do que pelo destino quase sempre trágico de seus protagonistas.

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